III – Histórico do “Movimento Ecumênico” na Igreja Católica

A Igreja Católica, fiel a sua tradição à época quase bimilenar, permaneceu afastada da Conferência Missionária Mundial, dos movimentos que se originaram dessa conferência e também do surgimento do World Council of Churches. Entretanto, em que pese o fato de a cúpula da Igreja manter-se fiel à sua missão Apostólica, muitos membros do clero passaram a ter contato com o “Movimento Ecumênico” e a se influenciarem pelas ideias do ecumenismo protestante. Houve vários, mas para fins desse estudo nos ateremos ao Cardeal Mercier e ao Padre Paul Couturier. Dessa forma, primeiramente estudaremos as ações desses dois membros do clero e, em seguida, estudaremos as principais manifestações oficiais da Igreja Católica a respeito do tema.

III.a- Cardeal Désiré-Joseph Mercier (1851 – 1926) e os encontros de Malines

Em 6 de Dezembro 1921, começaram uma série de Reuniões ou “Conversas”, como foram chamadas, entre um grupo dos hereges anglicanos e um conjunto de católicos romanos, cujo objetivo era começar a “clarear o terreno de alguns dos muitos mal-entendidos e preconceitos acumulados ao longo dos quatro séculos de história de divisão” desde a separação do Rei Heruy, da seita anglicana, da Igreja de Roma. Essas Conversas começaram de modo não oficial, no sentido de que não tinham autorização nem da Igreja Católica nem dos anglicanos, por iniciativa do Lord Halifax e seu amigo Padre francês Vicentino Abbé Fernand Portal. Entretanto, ao envolver o Cardeal Désiré Joseph Mercier, Arcebispo de Malines-Bruxelas, do lado romano e, do lado anglicano, o ‘arcebispo’ anglicano de Canlerbury, RandalI Davidson, estas conversas podem, eventualmente, ser observadas com um status semi-oficial – apesar de haver muitas reservas pelas autoridades de ambos os lados.
O claríssimo objetivo dessas reuniões foi examinar a possibilidade de união da Igreja Roman Católica com os hereges anglicanos. O número de participantes variou, mas incluiu, além dos citados no parágrafo anterior, no lado anglicano os ‘bispos’ Walter Frere, Charles Gore e Joseph Armitage Robinson. Os participantes católicos incluíam também o padre francês Pierre Batiffol, o monge belga Dom Lambert Beauduin, e o sucessor de Mercier, o cardeal Jozef-Ernest van Roey, que terminou as conversas em 1927.

III.b- Padre Paul Irénée Couturier (1881-1953) e a Semana Universal de Oração pela Unidade dos Cristãos

O padre francês Paul Irénée Couturier teve grande contato, na década de 20, com russos ortodoxos exilados da revolução bolchevique.  Mais tarde, em 1932, quando estava com os Monges Beneditinos da Unidade no Priorado de Amay-sur-Meuse, leu uma introdução à obra do Cardeal Désiré-Joseph Mercier e foi apresentado à obra de Dom Lambert Beauduin. Estes estimularam seu próprio interesse pelo “Movimento Ecumênico”.

A exemplo do que fizeram os hereges anglicanos (que estabeleceram uma “Oitava para a Unidade da Igreja”em 1908) , em 1933, Paul Couturier estabeleceu um “Tríduo para a Unidade dos Cristãos” em Lyon, que se tornou também uma Oitava em 1934, estendendo-se desde a festa da Cátedra de São Pedro até a festa da Conversão de São Paulo. Couturier especificamente ofereceu sua Oitava para a unidade de todos e “todos batizados na fé cristã” (como se houvesse verdadeiramente Fé Cristã fora da Igreja Católica), incluindo ortodoxos, anglicanos e outros grupos cristãos. Começando em 1939, seu nome foi mudado para a “Semana Universal de Oração pela Unidade dos Cristãos”.

Ele também trabalhou para estabelecer laços mais estreitos entre católicos e membros das demais denominações hereges e cismáticas que se auto denominavam cristãs, organizando reuniões em La Trappe des Dombes e em Présinge. Um desses encontros, chamado Grupo Dombes, reuniu-se regularmente a partir 1937. Ele também manteve contato com judeus, muçulmanos e hindus, criou e distribuiu vários tratados sobre a “oração pela unidade” e manteve-se em estreito contato com o World Council of Churches (WCC).

III.c – O cânone 1325 do Código de Direito Canônico de 1917

Em 27 de maio de 1917, o Papa Bento XV que promulgou o Código de Direito Canônico, que dispunha, em seu Cânone 1325:

Can. 1325. § 1. Fideles Christi fidem aperte profiteri tenentur quoties eorum silentium, tergiversatio aut ratio agendi secumferrent implicitam fidei negationem, contemptum religionis, iniuriam Dei vel scandalum proximi.

§ 2. Post receptum baptismum si quis, nomen retinens christianum, pertinaciter aliquam ex veritatibus fide divina et catholica credendis denegat aut de ea dubitat, haereticus; si a fide christiana totaliter recedit, apostata; si denique subesse renuit Summo Pontifici aut cum membris Ecclesiae ei subiectis communicare recusat, schismaticus est.

§ 3. Caveant catholici ne disputationes vel collationes, publicas praesertim, cum acatholicis habeant, sine venia Sanctae Sedis aut, si casus urgeat, loci Ordinarii.

Em português ficaria (tradução e grifo nossos):

Can. 1325. §1.Os fiéis de Cristo são obrigados a professar a sua fé sempre que o seu silêncio, evasividade ou maneira de agir abranger uma negação implícita da fé, desprezo pela religião, injúria a Deus ou escândalo ao próxmio.
§2. Após a recepção do batismo, se alguém, retendo o nome de cristão, nega ou duvida, com pertinácia, algo que se possa crer pela verdade da fé divina e católica, tal é um herege; Se ele se afasta completamente da fé cristã, [tal é] um apóstata; Se finalmente ele se recusa a estar sob o Sumo Pontífice ou recusa a comunhão com os membros da Igreja sujeitos a ele, ele é um cismático.
§3. Que os católicos tenham cuidado para não terem debates ou conferências, especialmente públicas, com não-católicos, sem terem vindo à Santa Sé ou, se o caso for urgente, ao Ordinário do lugar.

Dessa forma todos membros do clero que participaram de reuniões do “Movimento Ecumênico” a partir de 1917 o fizeram ao arrepio do CIC 1917.

III.d- A Encíclica Mortalium Animos do Papa Pio XI (06/01/1928)

Conforme exposto até o momento, o quadro que havia nas primeiras décadas era o seguinte: o crescimento de um falso ecumenismo nas religiões protestantes e cismáticas, que tinha o objetivo de criar uma nova religião única e que lentamente começara a se infiltrar dentro da Igreja Católica.

Diante da preocupante situação, o grande Papa Pio XI, em 1928 (dezoito anos após a Conferência Missionária Mundial de Edimburgo) publicou a Encíclica Mortalium Animos, em que condena de forma severa o movimento do falso ecumenismo e ainda proibiu os católicos de participarem de quaisquer encontros relacionados ao “Movimento Ecumênico” (confirmando o disposto no §3 do Can. 1325 do CIC 1917): “Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.” (Seção X, Encíclica Mortalium Animos, Pio XI, 06/01/1928, grifo nosso).

Essa importantíssima encíclica será objeto de um posterior estudo apartado.

II.c.vi – A Instructio de Motione Oecumenica emanada pelo Santo Ofício (20/12/1949, na AAS do 31/1/1950)

No ano de 1949, ainda sob o reinado de Pio XII, novamente a Santa Sé se manifestou a respeito do falso ecumenismo através da Instrução de motione oecumenica, que, seguindo a linha da Encíclica Mortalium Animos, também condenou implacavelmente o “Movimento Ecumênico”.

Essa instrução também será objeto de estudo apartado. Por ora, em caráter meramente exemplificativo, reproduzimos uma parte dela:

1) a Igreja católica possue a plenitude de Cristo e não precisa aperfeiçoa-la com o concurso de outras confissões;

2) não se deve procurar união através de assimilação progressiva da várias confissões de fé nem mediante a adaptação do dogma católico a um outro;

3) a única verdadeira união das Igrejas pode realizar-se somente com a volta dos irmãos separados à verdadeira Igreja de Deus;

4) os separados que se reúnem à Igreja católica nada perdem de substancial de quanto pertence à sua particular profissão, mas ao contrário, o encontra idêntico e numa medida completa e perfeita.”  (Instructio de motione oecumenica, 20/12/1949, AAS de 31/1/1950)

III.e – A entronação do Papa João XXIII e a convocação o Concílio Vaticano II

Os ensinamentos do Magistério da Igreja a respeito do verdadeiro e do falso ecumenismo já encontravam-se devidamente e minuciosamente explicados na Encíclica Mortalium Animos e posteriormente sumarizadas para que não restasse qualquer sombra de dúvida pela Instructio de Motione Oecumenica no final de 1949.  Assim, a Igreja havia confirmado sua vocação apostólica e desmascarado “Movimento Ecumênico”, mostrando seu viés modernista e sua perniciosidade às almas e à Sã Doutrina.

Mas as coisas iriam mudar no Vaticano. Em 9 de outubro de 1958, morreria Pio XII, e, no conclave que se seguiu, seria eleito em 28 de outubro de 1958 o Cardeal Angelo Giuseppe Roncalli, entronado sete dias depois como Papa João XXIII. Há um estudo excelente, desenvolvido pela Permanência, sobre o pontificado de João XXIII, que pode ser lido aqui. Recomendo sobretudo a leitura do Discurso do Papa João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II.

Em 05/06/1960, o Papa instituiu o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, uma Comissão Preparatória do Concílio Vaticano II, nos seguintes termos (tradução e grifo nossos): “Inspiração do Altíssimo Nos parece o pensamento, que desde o início do Nosso Pontificado brotou em Nossa mente, como flor de inesperada primavera, de convocar um Concílio Ecumênico. De fato, com a solene assembleia de bispos de todo o Romano Pontífice, a Igreja, noiva amada de Cristo, pode adquirir, nestes tempos turbulentos, um novo e maior resplendor e respeito aos que, gloriando-se do nome de cristãos, vivem contudo separados desta Sé Apostólica, brilha novamente a esperança de que, ouvindo as vozes do Pastor divino, venham a única Igreja de Cristo.” (Motu Proprio Superno Dei, 05/061960, Papa João XXIII).

No dia 11/10/1962, quando da abertura do Concílio Vaticano II, afirmava o Papa: “Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa“. Houve expressões suas peculiares que davam o tom de seu pontificado: “aggiornamento”, “sacudir o pó imperial que cobre a Igreja”, “abrir as janelas para que entre ar fresco na Igreja”.

Foge do escopo desse estudo fazer considerações sobre o trágico Concílio Vaticano II. Nos interessa, no entanto, analisar a nova postura adotada pela Igreja a partir do Concílio no que tange ao “Movimento Ecumênico”.

Voltemos pois ao sucessor de Pio XII. O novo Papa, a despeito do ensinamento de quase dois mil anos da Igreja e que foi cristalizado pelos antecessores dele, adotou uma postura inédita na história da Esposa de Cristo, em relação aos que não aceitam a Verdadeira Fé. Além de não condenar o falso ecumenismo,  João XXIII apresentava atitudes alinhadas ao pensamento do “Movimento Ecumênico”. Tanto é assim que era reverenciado pelos ortodoxos russos, que o consideravam “patrono do movimento ecumênico”.

O Papa João XXIII não mudou somente a postura da Igreja com relação às seitas protestantes. Mudou também a relação com as demais crenças existente no mundo, como a com os xintoístas, muçulmanos e , mais notadamente, a relação com os Judeus.

Como exemplo deste último ponto, João XXIII mudou, de forma totalmente injustificada, a oração que havia para os judeus na liturgia da Sexta-Feira Santa. Antes era (grifo nosso) “Oremus et pro perfidis Judaeis: ut Deus et Dominus noster auf erat velamen de cordibus eorum; ut et ipsi agnoscant Jesum Christum Dominum nostrum.”  (“Oremos também pelos descrentes Judeus, para que Deus, Nosso Senhor, tire de sues corações o véu da cegueira, a fim de chegarem ao conhecimento de N. S. Jesus Cristo”) e passou a ser (grifo nosso) “Oremus et pro Judaeis ut Deus et Dominus noster auferat velamen de cordibus eorum; ut et ipsi agnoscant Jesum Christum, Dominum nostrum.” ( “Oremos também pelos Judeus, para que Deus, Nosso Senhor, tire de sues corações o véu da cegueira, a fim de chegarem ao conhecimento de N. S. Jesus Cristo).

Fontes:

https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Couturier

https://books.google.com.br/books?id=buhHTR79FtIC&pg=PA117&lpg=PA117&dq=anglican+encounter+cardinal+mercier&source=bl&ots=5i5zDUK2ic&sig=rxrbij3t94p-ivLb5xZvGk07s98&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiQxKODzozQAhVDEpAKHeUoCGAQ6AEIJDAB#v=onepage&q=anglican%20encounter%20cardinal%20mercier&f=false

https://promariana.wordpress.com/2010/11/18/a-enciclica-mortalium-animos-resume-a-inaudita-defeccao-presente/

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/sub-index/index_updates.htm

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/sub-index/index_council-churches.htm

http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html

Unitatis Redintegratio – o decreto do Vaticano II sobre o ecumenismo

http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html

Ficha 26: Declaração Nostra Aetate (NA)

http://espelhodejustica.blogspot.com.br/2015/01/instrucao-de-pio-xii-sobre-o-verdadeiro.html

https://numen.ufjf.emnuvens.com.br/numen/article/viewFile/899/781

https://books.google.com.br/books?id=9CxjDFOrI8AC&pg=PA214&lpg=PA214&dq=revista+ISTINA&source=bl&ots=vJrxnNsIuX&sig=FbdtEYY9JmuqRD6c91Mt4ZxG–0&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj9weiMmY3QAhUTl5AKHbMcDVMQ6AEIJDAB#v=onepage&q=revista%20ISTINA&f=false

https://www.youtube.com/watch?v=8zkUIRjMsJw

 

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